As ilusões são temporárias


Irving Fisher, economista norte-americano do século XX, chamava “Ilusão Monetária" à inflação. O nome devia-se ao facto de as pessoas tenderem a pensar no seu salário do ponto de vista do seu valor nominal, ao invés do seu valor real (poder de compra), isto é, as pessoas não descontavam o factor inflação. Tal não é notório quando a inflação é baixa mas o princípio do fim desta pandemia marca a retoma de níveis de inflação consideráveis, que já tínhamos esquecido que existiam. Como (quase) todas as ilusões da nossa vida, também esta é temporária e não é apropriado pensar o oposto.

De um modo simplista, a inflação é o aumento generalizado dos preços (ao contrário de deflação, que é uma diminuição generalizada dos preços). Podemos ter um aumento salarial de 10% mas se a inflação for superior a isso perdemos poder de compra, visto que o nosso dinheiro “vale menos”.

Existem várias teorias que a explicam. A mais comum é a clássica/neoclássica, que afirma que existe inflação por haver uma oferta monetária elevada (demasiado dinheiro em circulação). Por outro lado, a Keynesiana reconhece este efeito, mas acrescenta-lhe que só existe verdadeiramente inflação quando o aumento dos salários é superior ao aumento da produtividade. O que se pode concluir é que a política macroeconómica (injecção de montantes consideráveis de dinheiro ou aumento das taxas de juro, por exemplo) pode efectivamente ter um impacto significativo na inflação.

O Banco Central Europeu (BCE) redefiniu a sua política económica em Julho do ano passado, ao afirmar que almejava um valor de 2% para a inflação e que uma variação simétrica em torno deste valor é igualmente má.. A palavra chave aqui é “simétrica”: anteriormente o BCE pretendia uma taxa de inflação de, no máximo, 2%. Agora, com a nova política económica, afirma ser igualmente prejudicial uma taxa de 1% ou de 3%. Olhemos para os números dos últimos anos, recorrendo ao Índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC). Este índice é uma medida de comparação da inflação no consumidor, entre diversos países, e é também o principal indicador do BCE para a inflação. A figura abaixo mostra o IHPC em Portugal e na Zona Euro, desde Janeiro de 2016.

Inflação em Portugal e Zona Euro

Figura 1 - Índice Harmonizado de Preços no Consumidor para Portugal e para a zona euro.

A linha a preto refere-se ao valor “óptimo” de inflação para o BCE. Podemos verificar que Portugal teve, no período analisado, quase sempre menos inflação que a média da Zona Euro. É possível verificar também que a inflação esteve muitas vezes próxima dos 2%, mas quase sempre abaixo desse valor e chegou mesmo a estar negativa (deflação). Todavia algo mudou a meio de 2021. A inflação começou a galopar e atingiu valores que não se verificavam há décadas: mais de 5% na Zona Euro e mais de 3% em Portugal. Porquê?

Antes de responder à questão, permitam-me discutir a diferença entre os valores da inflação em Portugal e da Zona Euro. Esta diferença, de quase 2%, é importante. Significa que os nossos produtos podem ter-se tornado mais competitivos a nível europeu (de um modo simplista, se os nossos produtos encarecem menos que os produtos similares europeus, os nossos ficam mais competitivos). Esta visão “positiva” da inflação não pode nunca ignorar o facto de milhões de portugueses terem sofrido perdas no seu salário real e, consequentemente, de poder de compra. Como sabemos, a inflação afecta e prejudica sobretudo os mais pobres, pois apenas possuem liquidez e não activos.

Voltemos à questão previamente colocada: porque razão a inflação subiu abruptamente? Muita gente esperneou e gritou, referindo que a inflação se devia às impressoras de Frankfurt estarem a rolar, ou seja, que tal se devia à política macroeconómica europeia – elevada injecção de dinheiro na economia e baixas taxas de juro. Será que é mesmo assim?

Estes apologistas de menor intervenção do BCE parecem ignorar alguns aspectos importantes que também explicam a inflação. Vejamos o seguinte encadeamento lógico: em cada vaga da pandemia e consequente confinamento, tanto consumo como produção diminuíram abruptamente. As cadeias de abastecimento ficaram maioritariamente paradas ou em “serviços mínimos”. Quando o consumo retomou, devido ao fim de um confinamento, a oferta (produção) não conseguiu acompanhar o aumento substancial das solicitações, ou seja, houve um desfasamento significativo entre procura e oferta. Devido a essa escassez temporária, as cadeias de abastecimento sofreram um aumento considerável dos preços. Este aumento verificou-se sobretudo no custo das matérias primas e foi sendo progressivamente passado para o consumidor final. Este processo todo traduziu-se em inflação.

Mas esta lógica não é única que explica a inflação. Aliás, em economia é extremamente raro um acontecimento ter apenas e só uma causa. A inflação subiu também porque os custos de energia dispararam, sobretudo pelo aumento dos custos de produção na China. A iminente guerra na Ucrânia também é um factor de desestabilização dos preços da energia, pelo menos ao nível europeu. Uma parte considerável da indústria europeia é dependente dos gasodutos russos, com o Nord Stream 1 à cabeça. Esta instabilidade no leste europeu contribuiu ainda mais para a subida da inflação.

Como escrevi no início, a política económica afecta, significativamente, a inflação. No entanto, neste momento, a inflação deve-se sobretudo a questões temporárias, como as que referi nos parágrafos acima. Por isso, com a normalização das cadeias de abastecimento e produção e um menor desfasamento entre oferta e procura, prevê-se que diminua ao longo dos próximos meses.

Christine Lagarde referiu recentemente, no podcast do BCE, que a economia europeia era cada vez menos afectada por cada vaga da pandemia e que os factores que restringiam o consumo e produção vão, gradualmente, diminuir. Ou seja, voltaremos, progressivamente, a um estado de normalidade, sem necessidade de histeria ou de efectuarmos grandes alterações da política monetária europeia, nomeadamente com uma subida acentuada e precoce dos juros do BCE. O programa de compra extraordinária de dívida (PEPP) já diminuiu o seu ritmo e irá terminar em breve. A política económica será menos expansionista nos próximos tempos, sem necessidade de subida das taxas de juro do BCE. Aliás, tal já é notório na taxa de juro real da dívida Portuguesa a 10 anos, que teve uma subida significativa nos últimos dias.

Às vezes pergunto-me se os decisores políticos possuem a frieza e a calma necessárias para estarem nos lugares difíceis que ocupam. A directora do BCE mostrou que as tem. Infelizmente, muitos outros não. Entrar em pânico só criará mais ilusão. Temo até que essa não seja temporária.

O autor não segue o novo acordo ortográfico


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